Machados


A Herdade de Machados foi parte integrante do patrimônio de José Maria dos Santos. A herança dessa propriedade foi mais uma história interessante, que ficará mais fácil de entender depois da leitura do relato do tio Miguel Caetano.

Resumindo, pela vontade inicial de JMS, na geração dos netos que não teve, teria chegado a Herdade de Machados ao avô José Lupi e A Herdade de Rio-Frio a Samuel Lupi dos Santos Jorge mas, tantas aconteceram na geração intermediária dos sobrinhos de JMS (só lendo o relato!), que as coisas se inverteram e à hora da morte de Samuel Lupi dos Santos Jorge em 1964, era seu principal patrimônio transmissível a citada Herdade de Machados, que ficou para sua esposa e seus dois enteados.

Ao que consta, o ilustre enteado Nuno Tristão Neves, enfrentou uma luta inglória, que passou pela revolução com expropriação, pela batalha para conseguir reaver parte do seu patrimônio e pelas dificuldades para mantê-lo, sem apoio, tendo acabando com a venda do patrimônio ao capital espanhol, fato bastante comentado na mídia portuguesa.

[Miguel D S Lupi - 05/abril/2008]


A Herdade dos Machados era uma propriedade familiar e, após a morte do proprietário, os herdeiros constituíram, em 1967, a Casa Agrícola Santos Jorge para a explorar. "A empresa contratou mais pessoal, adquiriu tractores e ceifeiras debulhadoras, tinha vinho, azeite, gado e culturas forrageiras, lagar, adega e destilaria de aguardente para transformar os figos", recorda, sublinhando que a "pequena aldeia" contava ainda com posto médico e habitações para os trabalhadores.

A empresa "à séria", que até teve três lojas em Lisboa para venda exclusiva dos seus produtos, desenvolveu-se até 1975, quando, nos anos quentes que se seguiram ao 25 de Abril, foi ocupada, seguindo-se uma intervenção estatal "para acalmar os ânimos" que durou até 1979, conta. Após esforços dos proprietários, o Governo procedeu à desintervenção da empresa e, em Abril de 1980, o então primeiro-ministro Francisco Sá Carneiro (AD) fez "uma reforma agrária à sua maneira" na herdade, repartindo-a em "mais de 300 parcelas" que entregou a "cerca de uma centena de pessoas".

[http://www.confagri.pt/NR/exeres/3F120FF5-9A73-475D-BEB1-0C2F5272D870.htm - 04/04/2008]


Lutam contra a reforma agrária no Alentejo
Espanhóis entraram na Herdade dos Machados, o maior olival português 
07.03.2008 - 09h05 Ana Fernandes
Para onde quer que se olhe, tudo o que a vista alcança é Herdade dos Machados. Pouco depois de Moura, onde Portugal ultrapassa o Guadiana e espeta uma barriga em Espanha, uma das maiores propriedades do país não conseguiu ainda sacudir a herança da Reforma Agrária de Sá Carneiro.

A sua esperança repousa agora nos espanhóis, que acabaram de entrar em metade do capital da quinta. Para ver se, face às vultuosas intenções de investimento estrangeiro, o Estado resolve de uma vez um imbróglio com 32 anos.

São mais de seis mil hectares de óptimas terras prenhes de água. Dir-se-á que uma herdade com esta dimensão e tão abençoada pela natureza tem tudo para gerar um negócio competitivo. Já teve, mas como está é um hino ao desperdício. Dividida entre vários rendeiros em 1975 (ver texto nestas páginas), hoje é uma manta de retalhos que não garante escala a quem ali produz.

Os proprietários, herdeiros da família Santos Jorge, recuperaram cerca de metade da propriedade mas aos pedacinhos, interrompida a cada passo por terras que estão entregues a rendeiros do Estado. Há anos perdidos que tentam que o Ministério da Agricultura, que recebe 100 mil euros anuais de rendas sobre terrenos que não são seus, regularize esta situação. Até agora sem sucesso.

“Há 30 anos que a herdade foi desintervencionada e em 1980, quando voltámos, o Governo prometeu que a situação se iria resolver para que a empresa voltasse a ser a entidade empregadora que sempre foi mas, até hoje, o Estado não cumpriu o que era o seu dever”, diz Jorge Tavares da Costa, administrador da Casa Agrícola Santos Jorge.

Enquanto esta empresa esperava e desesperava, os espanhóis começaram a entrar em força no Alentejo, atraídos pela disponibilidade de água – impulsionada pelo Alqueva – bons solos, um clima mais ameno e herdades à venda, explica José Luis de Prado Ruiz-Santaella, responsável pelo Grupo Âncora.

Este junta duas famílias espanholas ligadas à agricultura e que tem – com os Machados – seis propriedades em Portugal, num investimento total que ascenderá a 140 milhões de euros e que se reparte entre olival, vinha, gado (bovino, ovino e equino), e industrial (lagar, adega, conservas de azeitona e produção de óleo de bagaço).

“Primeiro queriam comprar toda a herdade mas isso nem nos passou na cabeça pois queremo-nos manter aqui, sobretudo depois de tudo o que já aguentámos até à data”, explica Jorge Costa.

Surge então a hipótese do Grupo Âncora – que para Portugal criou a SGPS Franlabora – entrar em 50 por cento na sociedade. E assim fizeram. O negócio foi fechado no final de 2007 e, se tudo correr bem, implicará um investimento de 30 milhões de euros numa primeira fase e a criação de cerca de 100 postos de trabalho.

O português está convencido que a parceria agora feita com os espanhóis irá correr bem mas, para acautelar eventuais conflitos, estão a considerar ceder, cada um, meio por cento ao banco que liderar o processo de investimento.

Negociações eternas

Mas falta ainda muito a ultrapassar, começando pelas negociações com o Ministério da Agricultura. E do sucesso destas dependerá a viabilidade do investimento, algo que ambos os responsáveis – português e espanhol – não têm dúvidas: “Com a propriedade assim retalhada, o projecto não tem hipóteses.”

Os planos são ambiciosos e passam por ali criar o maior olival do mundo, diz José Luis de Prado. “Serão plantadas oliveiras em 4200 hectares, vai-se manter e reestruturar parte da vinha, colocando-lhe rega e continuará a criação de gado para manter linhas puras”, explica Jorge Costa.

Nesta herdade ficará também a transformação, planeando-se ali erigir o maior lagar da Península Ibérica, um investimento de 7,5 milhões de euros.

A Herdade dos Machados já albergou o maior olival da Península Ibérica, plantado em 1875 por José Maria dos Santos, e que ainda lá permanece mas cheio de “pés de burrico” nas terras que os rendeiros deixaram ao abandono, mostra Jorge Costa.

Estas plantas nascem por baixo das oliveiras mas em alguns casos já ultrapassam em altura a própria árvore. Se o projecto se concretizar, a maioria das oliveiras serão arrancadas para depois se plantar um olival intensivo, milimetricamente alinhado, com rega gota-a-gota. Muitíssimo mais produtivo.

A pergunta é inevitável: Não tem pena que isso aconteça? A resposta sai rápida. “Sim, dá pena arrancar o olival mas também dá pena ver como a herdade foi destruída após 1975”, diz o herdeiro. “Só quero ver a Herdade dos Machados outra vez com pujança”, acrescenta.

Será plantado uma espécie de oliveira muito produtiva que, através de técnicas intensivas, está a produzir azeitona ao fim de dois anos e meio. Mas Jorge Costa assegura que serão mantidos alguns núcleos com a variedade de Moura, já que ali há zonas demarcadas, tanto de azeite como de vinho. E é com espécies como a cordovil ou a galega que se obtém o azeite de melhor qualidade.

O projecto de investimento, em caso de sucesso das negociações, terá início em 2009 com a plantação de 40 por cento do total de olival, ficando o restante para os dois anos seguintes. O objectivo é produzir 65 milhões de quilos de azeitona por ano, o que dará mais de 11 milhões de quilos de azeite. A venda deste permitirá um encaixe anual de 34 milhões de euros, calcula a Franlabora.

De Córdova a Beja

José Luis de Prado transpira optimismo: “Vamos conseguir negociar com o Estado, que espero que acarinhe este importante projecto de investimento hispano-português.” O seu dinamismo é visível. Residente em Córdova, percorre todas as semanas centenas de quilómetros para Portugal, fascinado com uma riqueza de que, diz, os portugueses mal se apercebem: “Se vocês soubessem a sorte que têm por ter água...nós não temos”, lamenta. Atrás de si está a experiência feita de duas famílias emblemáticas de Espanha no sector agrícola.

O Grupo Âncora é detido em 42,49 por cento pela família de Prado, que dirige o Fomento Agrícola Andaluz, de Sevilha, dedicado a produtos hortofrutícolas. Outros 28,61 por cento são da família Martínez-Sagrera, há três gerações dedicadas à agricultura e gado e que detém o grupo Genil.

A Agrogenil, especialista em desenho, transformação e apoio técnico agrícola, tem outros 10,73 por cento, estando em Portugal desde 2001, onde interveio em nove mil hectares de olival distribuídos por 25 herdades. Os restantes 19,17 por cento estão na mão de Gerardo Caro Ruiz, que detém uma distribuidora de produtos agro-alimentares.

Para os Machados, a promessa é revolucionária. Depois de uma longa história de sucesso, em que da herdade se retiravam do vinho aos figos, passando pela carne e azeite, transformados e distribuídos pelos canais criados pela empresa que explorava as terras, viu-se de pernas atadas.

O investimento não parou – ainda há pouco renovaram o montado – mas só consegue voar baixinho. “Está aqui uma empresa com pernas para andar, que criará emprego e desenvolverá a região, mas com a herdade retalhada como está nunca sairá da cepa torta”, vaticina Jorge Costa. Pelo caminho perderá parte das características multifuncionais que teve no passado mas que hoje já não rendem, sobretudo no caso dos figos. Terá ainda de dialogar com o Ministério do Ambiente já que 1900 hectares estão em Rede Natura e o olival intensivo tem impactos que terão de ser acautelados, sobretudo numa zona rica em água subterrânea. E os rendeiros? “Dos 70 a 80 que existem, apenas uma dúzia vive mesmo disto, a maioria deixou tudo ao abandono”, diz o administrador da Casa Santos Jorge.

[http://ultimahora.publico.clix.pt/noticia.aspx?id=1321879 - 04/04/2008]
 


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