As Festas do Barrete Verde e das Salinas de Alcochete

...iniciam-se, habitualmente, dois dias antes do segundo Domingo do mês de Agosto e reflectem o mais nobre sentimento da tradição ímpar de uma vila ribeirinha, desde sempre fiel, orgulhosa e merecedora dos seus desígnios, da sua cultura.

Exultam a Festa Brava, a verdadeira essência, a verdadeira alma, que dá corpo a estas festividades, ou não fosse Alcochete inigualável na forma como comemora e pratica o culto da tauromaquia.

A noite mais longa do ano em Alcochete
As festividades atingem o clímax logo no primeiro sábado, com a realização da Noite da Sardinha Assada. As ruas, becos e ruelas engalanados, vestem-se de cor para receber um indescritível mar de gente.

Nesta noite, o Tempo parece parar e Alcochete é, por momentos, o centro do Mundo. Nos improvisados fogareiros de rua, «estalam» sardinhas, febras, couratos... o que houver. Nada mais importa, salvo a confraternização, a alegria, os abraços da tão típica saudade portuguesa, que faz gritar corações.

Afinal, é tempo de reencontro com a família para os muitos que regressam à sua terra natal depois de um ano de trabalho lá fora; é, para outros, tempo de rever amigos e receber forasteiros, amigos do nosso amigo, ou absolutos estranhos, mas que nesta noite passam a partilhar dos atributos da orgulhosa família Alcochetana...

Ah! já lá vem a charanga, com um som contagiante e rodeada de uma multidão de foliões. Agora, já só a noite manda. Até o Sol raiar, Alcochete canta e dança... é Noite da Sardinha Assada e «... é só gente da borda d’água».

Páginas da cultura portuguesa
Carismática desde sempre é, também, a realização da homenagem às três figuras centrais que os festejos honram – o forcado, o salineiro e o campino. Uma tradição distinta, assinalada no dia de abertura das celebrações e precedida por um cortejo de invulgar composição e beleza, um verdadeiro símbolo das Festas do Barrete Verde e das Salinas.

Não só pela beleza que encerra em si, como também pela forma como é levada a efeito, por Mar e por Terra, a Procissão em Honra de Nossa Senhora da Vida, no Domingo, é outro dos momentos altos. É a fé de mãos dadas com a devoção a fluir numa terra onde a tradição, exibida com orgulho e brilhantismo, segue os mais fortes pergaminhos da cultura portuguesa.

Depois, as tradicionais largadas, a par da vertente dos espectáculos musicais, que decorrem ao longo dos dias de comemorações, enchem as ruas, no primeiro caso, e o Largo de São João, no segundo, com verdadeiras multidões, envoltas em frenéticas ondas de êxtase e alegria.


Historial das Festas

Apesar de centrar a sua homenagem em três figuras da cultura local – o forcado, o salineiro e o campino –, as Festas do Barrete Verde e das Salinas não se dissociam dos predicados religiosos. Aliás, surgiram na sequência das extintas Festas em Honra da Nossa Senhora da Vida, que segundo alguns autores já se realizavam no século XVII.

Com a inclusão de uma corrida de toiros na programação destas festividades, em Agosto de 1930, aliando-se assim o cariz religioso à vertente profana, abriu-se caminho para o surgimento das actuais Festas do Barrete Verde e das Salinas.

As Festas de Nossa Senhora da Vida, então a cargo da Sociedade Imparcial 15 de Janeiro de 1898 de Alcochete, sofrem um interregno (que viria a ser definitivo) entre 1936 e 1940, mantendo-se, durante este período a realização da corrida de toiros, assegurada que foi por uma comissão da Santa Casa da Misericórdia.

Aproveitando a realização desta já habitual corrida, José André dos Santos, jornalista e Alcochetano, faz nascer o primeiro «Barrete Verde». Estávamos então em Setembro de 1941, quando a romaria – que começou por se denominar «Festas das Salinas e do Barrete Verde» – teve início.

A organização da iniciativa pertenceu à Santa Casa, com os concursos da Câmara Municipal, de Samuel Lupi dos Santos Jorge e de José André dos Santos, e com a colaboração da Sociedade Imparcial. Ainda nesse ano, nasceu o primeiro grupo de «Meninas do Barrete Verde».
Em 1942, as Festas são organizadas com a colaboração e concurso da Santa Casa e da Sociedade Imparcial e ganham a designação actual.

No ano seguinte, surgem as primeiras dificuldades: a Santa Casa abdica da organização dos festejos e a Sociedade assume o ónus com o apoio da Autarquia. Começa-se, então, a projectar uma comissão que se responsabilize anualmente pelas Festas.

Aposento assume organização das Festas
No final das festividades de 1944, organizadas por uma comissão patrocinada pela Câmara Municipal, um grupo formado por Joaquim de Carvalho, Joaquim Godinho, António Regatão, Augusto de Oliveira e Álvaro da Costa resolve assumir a realização das Festas, fundando, em Agosto, uma entidade para o efeito – o Aposento do Barrete Verde.

Com o passar dos anos, os festejos vão reforçando a sua dimensão e ganhando brilhantismo.

Em 1959, um periódico nacional distingue as Meninas do Barrete Verde como «um exemplo a seguir» e Alcochete como «a autêntica pátria dos forcados portugueses»!

Em 1965, o Aposento, então liderado por Francisco Penetra Rodrigues, acorda com o Patriarcado a reintrodução da componente religiosa, afastada que havia sido quatro anos antes. E seria já em 1967, com a colectividade sob a gerência de Armando Trindade, que se realizariam as primeiras largadas de toiros nocturnas assim como a primeira noite da sardinha assada. Duas «inovações» que viriam a transformar-se em imagem de marca destes festejos.

Um «visitante» inesperado
De um já vasto historial, há ainda a realçar um insólito episódio, ocorrido na edição das Festas de 1976, quando durante a realização de mais umas largadas da praxe, o toiro resolveu «tomar de assalto» as instalações do Aposento do Barrete Verde.

O animal dava pelo nome de «Pintassilgo» e subiu até ao 1.º andar da sede, fazendo questão de visitar todas as salas, o que provocou valente susto a todos aqueles que se encontravam no edifício a assistir às largadas.

Teimoso em arredar pé, obrigou a que se recorresse a um processo de anestesia. Não «saiu em ombros», mas saiu praticamente ao colo dos aficionados.
A cabeça do impetuoso «Pintassilgo» está actualmente exposta na sala José André dos Santos, na sede do Aposento, assinalando o acontecimento.

[http://www.costa-azul.rts.pt/directoria/detalhes_entidade.php?cm=neg&id=1126 - 05/04/2008]
 

 

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